quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Um post mais multimédia


Ao fazer a ultima entrada no meu blog, reparei que este não está muito internético. A Malta da internet gosta de vídeos e fotos, e não de muita conversa, o que dá uma trabalheira a ler. Tendo este facto em conta, comecei uma busca de fotos e vídeos onde atividades gaiteiras tenham sido registradas. Para pena minha, não é vasto o conjunto que possuo, mas encontrei um vídeo recente, o qual penso que é de extrema importância partilhar.
Pois bem, a história que vou contar passou-se não há muito tempo, numa localidade chamada Palheira perto de Coimbra. Neste dia, quem estava a atuar era: eu na gaita, o José Pinheiro na caixa e o José Taborda no bombo.
O dia começou de forma pouco ortodoxa. Quando chegámos para tocar, fomos surpreendidos pelo pedido de não o fazer. Ao que parece, o pároco da freguesia tinha falecido, pelo que a festa ficou, como se diz no mundo gaiteiral, em águas de bacalhau. Passamos então a nossa manhã a trabalhar na nobre tarefa de vazar barris de cerveja. Tudo com a finalidade de testar a qualidade do produto para que não houvesse a infelicidade de alguém contrair uma má disposição, agravando dessa forma o dia.
Embora a festa tenha sido feita de forma mais contida, isto não implica que os graus de alcoolemia tenham tido a mesma proporção. Ainda não tínhamos almoçado e já o ambiente se encontrava bastante animado. Penso que o vídeo que se segue demonstra o que estou a descrever.











Tiveram o prazer de assistir à magnifica atuação do "testeiro" José Taborda, com acompanhamento de bombo feito pelo técnico de som contratado para a festa. Este concerto estava a ser transmitido em direto para toda a aldeia pelo sistema de som que o artista instalou.
Encontrei ainda esta foto, tirada também neste dia, com a qual demonstro o objectivo principal da contratação do grupo de gaiteiros. A população, ao ouvir o toque da gaita, automaticamente percebe que lhe está a ser pedida uma contribuição monetária para que seja possível à comissão de festas fazer a celebração em honra do santo em questão. A forma como este dinheiro é guardado, ou transportado, difere de localidade para localidade e de tradição para tradição. Ao contrário da tradicional saca do pão feita de pano, no local em questão, é dada a oportunidade à população de ver como está a correr o peditório.
Ainda há gente honesta... Acho eu.






sábado, 25 de janeiro de 2014

Brincadeirinhas irritantes


Ora bem, como sabem os milhões de subscritores do grande espaço "A vida de um gaiteiro" a frequência com que são introduzidos novos textos não é a melhor. Mas nunca cai no esquecimento o peso da obrigação moral que tenho para com os sedentos leitores que acompanham o espaço. Então, e aproveitando o tempo de espera para ser atendido pela senhora vestida de azul de uma das operadoras móveis (a qual não vou revelar a identidade), cá vou escrevendo esta, que não é uma história, mas sim uma mensagem de indignação.
Ora bem, quase todos os dias o gaiteiro e os seus companheiros são alvos de brincadeiras despropositadas que se tornaram já uma espécie de tradição. A que mais magoa os meus sentimentos é executada directamente no meu instrumento e chamei-lhe: "Mas que ideia foi essa?"
Como todos sabem, a gaita de foles, um instrumento bastante interessante, melódico e agradável em qualquer situação, para além do ponteiro (parte do instrumento onde se produz a melodia) tem também uma ronca (peça comprida que está ás costas do gaiteiro que serve para dar uma nota pedal, ou bordão). Esta nota é para mim a alma do instrumento. Sem ela, este não faz sentido. Há inclusivamente uma grande preocupação na preparação do instrumento para que nada falhe no equilíbrio entre o ponteiro e a ronca. Um dos problemas da ronca é que está fora do alcance da vista do gaiteiro. Desta forma, à semelhança das didáticas brincadeiras de escola onde os colegas de turma nos colavam nas costas um papelinho que inteligentemente ordenava que nos chutassem o rabo, uma grande parte do público gaiteiral dedica-se a tapar o orifício da ronca fazendo com que está pare de tocar. Assim, a gaita de foles, que até aí soava como um instrumento imponente, transforma-se numa corneta agudinha e bastante irritante.
Confesso que de todos os gaiteiros que conheço, que são bastantes, não há um que não perca as estribeiras numa situação destas. Posso também afirmar que é raro o arraial onde este, já quase ritual, não aconteça pelo menos uma vez.
Amigos, peço a vossa compreensão.
O gaiteiro é já obrigado pela sua profissão a praticar algumas actividades que não ajudam à saúde cardíaca. O comer comidas gordurosas, o beber algumas bebidas alcoólicas, entre outras, por isso vamos tentar não irritar o homem para ver se este anima mais uns anos as nossas tão queridas festas populares.
Obrigado.

sábado, 6 de outubro de 2012

Perigos de vida


Como disse anteriormente, nem tudo são rosas na vida de um gaiteiro. Nesta publicação pretendo explanar um dos maiores perigos para a saúde do homem da gaita e dos seus companheiros.
Como devem saber, há duas coisas sem as quais não se pode realizar uma festa religiosa: o grupo de gaiteiros e os foguetes. Esta segunda presença obrigatória representa o que é provavelmente a maior ameaça à vida dos gaiteiros. Acredito inclusivamente que levará à sua extinção.
Como se não chegasse andar por estradas nacionais a tocar instrumentos bastante barulhentos, mas também doces e melódicos, que não permitem que sejamos alertados pelo sentido da audição para a aproximação de viaturas que nos podem ceifar a vida, vamos acrescentar um pouco de adrenalina à acção com a presença de explosivos. Sei que quem assiste à festa pensa que todos os perigos estão controlados. Afinal, é contratado um profissional para lançar os foguetes. A realidade, é que por norma a média de dedos por mão destes senhores é três, quando não têm o apelido "maneta". Mas o pior é que são raras as vezes que são contratados. A pergunta é: para quê pagar a alguém para fazer uma tarefa tão simples como lançar um foguete? Aqui se inicia a saga dos festeiros/fogueteiros amadores. Ou seja, não só não é segura a actividade quando feita por um profissional, como esta é feita a maioria das vezes por amadores. Pessoas que são aficcionadas por explosivos e também pelo consumo de álcool.
Até aqui tudo está a correr bem, os problemas começam quando se inventam formas alternativas ao lançamento do foguete, ou seja, brilharetes. Aqui enuncio três dos truques radicais, aos quais já assisti:
-Alvorada de rastilho único
Esta habilidade consiste em lançar uma larga quantidade de foguetes seguidos, acendendo uns com os outros.
-Foguete com meia cana
Neste truque o fogueteiro parte a cana do foguete ao meio, a cana que lhe confere estabilidade na subida, e lança-o aceso com o impulso rotativo do braço. (Ái meu Deus)
-150 metros foguete. (O nome deste truque é da autoria de Luis Serrano)
Por vezes, da parte da tarde, o fogueteiro sente a necessidade de fazer um breve jogging. Aproveita então para lançar um foguete em corrida. O homem desata a correr com um foguete acesso na mão e lança-o quando sente que é o momento.
Em futuros post's continuaremos a lista.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Uma forma de actuação diferente

São bastante conhecidas as capacidades atléticas dos gaiteiros, pois deles são esperadas caminhadas intermináveis pelas ruas, ruelas, atalhos e caminhos de cabras das mais variadas aldeias deste país. No entanto, algumas comissões de festas, têm desenvolvido algumas inovações no âmbito da mobilidade gaiteiral.
É comum, em aldeias que fazem festas com o apoio das circundantes, os gaiteiros serem transportados por veículos motorizados. Sei que neste momento estão a imaginar o transporte feito num carro, de aldeia em aldeia, onde saímos e fazemos a tão conhecida arruada. Pois bem, não é o que acontece. Por norma, o transporte é feito num "palco móvel", que consiste numa carrinha de caixa aberta munida de "confortáveis" sofás feitos à base de fardos de palha, material que nunca falta a uma comissão de festas.
O dia passa-se então a uma média de trinta quilómetros por hora. Na forte imaginação dos festeiros, com esta adaptação feita à forma de actuação gaiteiral, torna-se possível levar a mais lares um pouco de festa, mas na realidade, à velocidade que nos deslocam não se torna possível ao ouvido humano perceber sequer a modinha que o gaiteiro esta a interpretar.
Façamos agora uma pequena abordagem aos perigos que advêm desta forma de transporte. Antes de mais, constatemos o facto de que um fardo de palha solto numa carrinha de caixa aberta não é uma forma de bem acondicionar o gaiteiro. Primeiro porque não esta fixo ao chão, em segundo porque não tem cinto de segurança e terceiro porque o facto de o jovem ter as mãos ocupadas a tocar o impossibilita de tentar estabilizar o seu corpo com o auxilio destes membros. Agora a serio, tentem lá ir sentados num fardo de palha na parte de traz de uma carrinha, por estradas do interior do país, a uma velocidade que tem um crescimento exponencial equivalente ao grau de alcoolismo do festeiro designado como condutor, sem o auxilio das mãos para se agarrarem.  Vão por mim, não é uma tarefa fácil.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Uma história com um cavalo

Antes de mais aqui estão as minhas desculpas pela tão prolongada demora entre publicações, mas a vida assim mo obriga. Como devem calcular, uma vida ocupada pelas artes do bem gaitar não deixa espaço para muitas mais actividades, mas pouco a pouco cá vamos avançando com os relatos de anos de experiências vividas pelas aldeias do nosso país.
A história que hoje vos trago foi passada na grande localidade de Ceras e intitula-se: "A minha experiência pouco ortodoxa com cavalos". Como sabem, a festa de uma aldeia é sempre razão para tirar o cavalo do picadeiro e esticar as pernas ao bicho. Como não podia deixar de ser, Ceras não falhou neste ponto. Quando nos apresentamos pela manhã, junto ao pavilhão das festas, preparados para um dia normal de gaitadas pelas ruas, somos surpreendidos por uma pomposa charrete puxada por um belo corcel de tez alva.
É obvio que o inicio de mais um dia de trabalho cumpriu a tradição com a oferta de algo para beber. Inicia-se assim a relação de amizade entre o gaiteiro e o festeiro com alguns finos. Depois da bucha lá se começa a lavoura.
Que não iríamos tocar na charrete sendo puxados pelo belo animal já eu calculava, mas tão pouco me passaria pela cabeça que nos pusessem a abrir caminho para a sua passagem. É verdade, enquanto um dos festeiros guiava a charrete pelas ruas da aldeia, nos tocávamos grandes êxitos populares, como "O gaiteiro português" da Tonicha, ou o "Pimba Pimba" do grande artista Emanuel, abrindo alas para a sua passagem.
Tudo estava a correr bem, dentro do possível, até à hora de almoço. Depois de bem comido, e principalmente bem bebido, o grande condutor já não tinha as capacidades que outrora, numa época de sobriedade, possuíra. Enquanto indivíduo sentado numa viatura de tracção animal, que obviamente se pode deslocar bem mais rápido que o ser humano, o agora embriagado condutor já não tinha a noção de velocidade que o gaiteiro que seguia á sua frente desejava. Qual a minha surpresa quando sinto a suspirar do animal na minha orelha mesmo a meio da grande peça "O carrapito da dona Aurora".
Como disse, o animal até era bem bonito, mas foi nesse dia que se revelou uma certeza que a zoofilia não iria fazer parte da minha vida. O resto do meu dia foi então tentar não ser lambido por um cavalo que me seguia pelas ruas da aldeia de Ceras enquanto tocava belas melodias que atraiam a atenção dos abitantes para o grande espectáculo do qual fazia parte.
Aqui deixo o meu apelo:
Jovens que vão ás festas com cavalos. As pessoas que não estão montadas também existem e como é obvio não adquirem poderes fantásticos que lhes possibilitem comportar-se como um. E já agora, nem todos gostamos de estar mais que cinco minutos perto de um grande animal que cheira mal que se farta. Obrigado.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Mas o porco nunca mais....? 2ªParte

Bem, tínhamos ficado no momento em que um dos festeiros iniciara uma actividade que me era desconhecida. O senhor, que até aquele momento me tinha parecido uma pessoa normal, começou a espetar pregos no chão a uma distancia regular uns dos outros. O que me pareceu mais curioso foi a meticulosidade com que era medida a distância que ficava entre cada prego.
Como é evidente eu e os meus colegas começamos a questionar os restantes festeiros sobre a actividade. Estes naturalmente responderam que era uma actividade nova lá na terra. Parece que um deles tinha estado lá para o norte, local de onde vêm muitas das tradições ás quais chamamos nossas, e tinha visto uma variante do que se estava prestes a passar. Pois bem, tinham sido vendidas rifas que na vez de terem um número tinham coordenadas. O papel que normalmente tem o número 227, tinha neste caso 22/H. Estas coordenadas eram lidas numa arena dividida como um tabuleiro de xadrez, tabuleiro este que estava feito com os pregos espetados no chão.
"Então mas qual é o prémio?", perguntamos nós. A resposta foi: é um porco. Sim, um porco vivo é um prémio bastante normal numa aldeia. Sei que seria bastante complicado para qualquer citadino saber o que fazer com um porco, mas para um aldeão a resposta é bastante simples: criá-lo e comê-lo.
O que torna o sorteio peculiar é a forma como nos é dada a conhecer a coordenada premiada. O porco é solto na arena e sem qualquer interferência humana, o habitante que possuir a rifa com a localização do excremento expelido pelo esfíncter anal do animal leva-o para casa. Sim, não é só no teatro que a merda dá sorte...
O problema é que o animal não estava com muita vontade e qualquer tentativa de incentivo, como assustar o porco por exemplo, era considerado batota. Ficámos então aproximadamente duas horas à espera que o porco defecasse. Mas tudo correu bem, o porco lá se aliviou, o vencedor levou-o para casa e a festa continuou dentro da normalidade.
Bem, ainda dizem que o povo português é triste, nós diverti-mo-nos a ver um porco cagar. Ninguém exige nada de especial, só que não nos chamem piegas quando damos o couro e cabelo para salvar o país da situação de merda em que nos puseram. Até a próxima...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Mas o porco nunca mais....?

Não encontro melhor maneira para iniciar este episódio se não com a pergunta: Acreditam que já estive mais de uma hora à espera de ver um porco defecar?
Um dia quente de verão algures no meio da Serra da Rocha é o palco que acolhe este episódio. É de salientar que no mesmo local um ano depois toquei pela primeira vez com a rapaziada amiga Daniel, grande gaiteiro e João Pratas, grande gaiteiro, caicheiro, luthier e muito mais. Aqui lhes deixo um grande abraço. Mas vamos ao que interessa.
Qualquer festa que se preze possui uma quermesse. Esta consiste numa barraca feita à base de madeira, que embora pareça instável sobrevive sempre de ano para ano, o que prova a habilidade para a construção inata em qualquer festeiro. Munida de um toldo de plástico, torna-se o local onde são sorteados os mais fantásticos prémios, oferecidos pelos habitantes da aldeia. São estes que vão também tentar a sua sorte, o que prova a sua dupla generosidade. É bastante comum a existência de uma Dona Aurora que leva para casa a abóbora que ofereceu à quermesse porque lhe saiu o número 227 no papelinho amarelo da rifa. Papel este que desafia a habilidade e capacidade de quem o comprou na actividade de o desembrulhar. Não estou a brincar, as senhoras que embrulham os papeis das rifas levam o seu trabalho muito a sério, devia haver um estudo sobre isto... Bem, com a evolução dos tempos seria de esperar uma actualização na forma de angariação de verbas para a festa. Foi o que se verificou na Carapinheira da Serra.
As actividades festivas estavam a decorrer dentro da normalidade, quando naturalmente um dos festeiros inicia uma espécie de ritual que me era desconhecido.

Sim, a história vai ser terminada para a próxima. Eu disse que não tinha muito tempo...