Por esta altura estão todos a ambicionar uma vida de boémia e boa disposição ligada à arte da modinha. Pois para que não fiquem a pensar que isto de ser gaiteiro é só alegrias, vou também expor neste blog alguns problemas com que um tocador de gaita se pode deparar.
Vou começar por um problema frequente: "Estás a dizer que o meu vinho é mau?"
Ora durante um agradável dia a tocar pelas ruas de uma aldeia vai-se bebericando aqui e ali um ou outro "copito". Este "copito" varia entra uma vasta gama de produtos alcoólicos, alguns dos quais só gaiteiros são autorizados a beber. Note-se que não estamos a falar de um passeio de enologia, o objectivo de quem oferece o "copito" é mesmo embriagar o pobre gaiteiro. É usual ouvir-se " os gaiteiros do ano passado é que bebiam...." , e assim se entra numa espécie de disputa saudável (excepto para o fígado) de capacidade de "bazilhame".
O problema surge quase sempre pela tarde. Quando o sol já caminha para o seu descanso, ainda o gaiteiro está a fazer por dar uma vida digna à sua família e por esta hora já se encontra completamente bêbedo. Ao entrar numa garagem/adega, o seu proprietário logo se disponibiliza para auxiliar com mais um "copito". O gaiteiro, um homem sábio e humilde diz ao senhor que se beber em todas as casas não vai dar bom resultado. O senhor que já passou a tarde com o genro, o pobre rapazito que namora a sua filha, e que já tratou de o iniciar nas artes do tinto, talvez com o objectivo de o por de maneira a este já não conseguir profanar a arca dos segredos da filha em questão, não aceita a resposta de bom grado. "Você está a dizer que o meu vinho é mau? Então bebeu em casa do meu cunhado com tanta sede e aqui não quer?" Por norma estes senhores trabalham na construção civil ou na reparação automóvel o que lhes proporciona a denominada "talocha", uma mão extraordinariamente grande e calejada que tem por hábito oscilar aquando as perguntas feitas anteriormente. Aqui se dá inicio a uma bola de neve de "copitos" descontrolados.
Tenham cuidado jovens aspirantes a gaiteiros. Isto não é um mar de rosas...
segunda-feira, 27 de abril de 2009
sábado, 25 de abril de 2009
Quimbres
De todas as histórias que me possa lembrar, o dia passado em Quimbres ficou-me especialmente gravado na memória.
Este episódio passou-se à pelo menos cinco ou seis anos, nessa altura fui tocar com o meu avô, o senhor "Ti Domingos" e o meu amigo Luís, personagens que estarão presentes em histórias futuras. Ora bem, o dia começou como sempre ás nove da manhã e fomos conhecer os "festeiros". Peço desculpa por não me lembrar dos nomes dos senhores mas já passou muito tempo. Os festeiros são uma "raça" de pessoas que habita nos meios rurais, tem hábitos sazonais pois ficam mais activos aquando a altura da adoração do Nosso Senhor, Nossa Senhora ou Santo/a padroeiro/a da sua aldeia e possuem o chamado "bazilhame", uma barriga extraordinariamente grande para acondicionar variados tipos de bebidas alcoólicas.
Após as apresentações fizemos uma arruada, que é um costume tradicional que consiste em dar a volta à aldeia a tocar e a provar uns "docitos" (bebida de senhora que só se bebe de manhã para "matar o bicho", tipo vinho do porto caseiro, jeropiga caseira e toda uma variada gama de licores mais uma vez caseiros). Depois da arruada fomos ao "solteiros-casados", um jogo de futebol entre os solteiros e os casados da aldeia onde os solteiros mostram as suas habilidades para arranjar parceira e os casados tentam mostrar que ainda são viris. O arbitro é por norma um senhor de bigode que sabe falar sobre futebol e o massagista é sempre um garrafão de tinto caseiro patrocinado pela "comissão de festas" (o grupo dos festeiros).
Depois do jogo fomos almoçar a casa de um dos festeiros e foi então que as coisas começaram a ficar estranhas. É certo que estava um dia de muito calor, mas começámos logo a estranhar o facto de a senhora que nos tinha servido o almoço sair a correr de casa com um alguidar de água a tentar molhar toda a gente. Tudo regressou à normalidade e fomos tomar café ao único café da aldeia, nós e uma panela gigante que foi colocada por baixo da máquina de cerveja do estabelecimento já com duas garrafas de vodka dentro. Enquanto tomávamos café, uma das senhoras da terra andava com uma garrafa de wiskey de boca em boca isto já molhada da cabeça aos pés ao estilo miss t-shirt molhada.
Foi nos então pedido que tocássemos uma "modinha" e partíssemos pelas ruas da aldeia com um bando de homens já molhados da cabeça aos pés a transportarem a panela da qual se bebia á concha. Percebemos que toda a aldeia estava a par do acontecimento e que acima de tudo preparados com mangueiras nas janelas de suas casas e piscinas insufláveis nos terraços para molhar toda a gente na rua, que por esta altura já se encontrava muito alcoolizada. O percurso foi feito com muita calma e com um crescente numero de participantes. A certa altura reparámos que um senhor na casa dos oitenta anos se encontrava completamente nu nas ruas da sua aldeia, mas toda a gente se encontrava calma e levaram o assunto com naturalidade.
Chegámos por fim ao "recinto de festas", o posto de comando da festa e onde actuam as bandas de baile, que tocam músicas de artistas de renome internacional como Quim Barreiros, Emanuel, Romana e muitos outros.
Para terminar em beleza demos um grandioso concerto com participação especial de alguns senhores da aldeia com o tema Samaritana. Lindíssimo.
Este episódio passou-se à pelo menos cinco ou seis anos, nessa altura fui tocar com o meu avô, o senhor "Ti Domingos" e o meu amigo Luís, personagens que estarão presentes em histórias futuras. Ora bem, o dia começou como sempre ás nove da manhã e fomos conhecer os "festeiros". Peço desculpa por não me lembrar dos nomes dos senhores mas já passou muito tempo. Os festeiros são uma "raça" de pessoas que habita nos meios rurais, tem hábitos sazonais pois ficam mais activos aquando a altura da adoração do Nosso Senhor, Nossa Senhora ou Santo/a padroeiro/a da sua aldeia e possuem o chamado "bazilhame", uma barriga extraordinariamente grande para acondicionar variados tipos de bebidas alcoólicas.
Após as apresentações fizemos uma arruada, que é um costume tradicional que consiste em dar a volta à aldeia a tocar e a provar uns "docitos" (bebida de senhora que só se bebe de manhã para "matar o bicho", tipo vinho do porto caseiro, jeropiga caseira e toda uma variada gama de licores mais uma vez caseiros). Depois da arruada fomos ao "solteiros-casados", um jogo de futebol entre os solteiros e os casados da aldeia onde os solteiros mostram as suas habilidades para arranjar parceira e os casados tentam mostrar que ainda são viris. O arbitro é por norma um senhor de bigode que sabe falar sobre futebol e o massagista é sempre um garrafão de tinto caseiro patrocinado pela "comissão de festas" (o grupo dos festeiros).
Depois do jogo fomos almoçar a casa de um dos festeiros e foi então que as coisas começaram a ficar estranhas. É certo que estava um dia de muito calor, mas começámos logo a estranhar o facto de a senhora que nos tinha servido o almoço sair a correr de casa com um alguidar de água a tentar molhar toda a gente. Tudo regressou à normalidade e fomos tomar café ao único café da aldeia, nós e uma panela gigante que foi colocada por baixo da máquina de cerveja do estabelecimento já com duas garrafas de vodka dentro. Enquanto tomávamos café, uma das senhoras da terra andava com uma garrafa de wiskey de boca em boca isto já molhada da cabeça aos pés ao estilo miss t-shirt molhada.
Foi nos então pedido que tocássemos uma "modinha" e partíssemos pelas ruas da aldeia com um bando de homens já molhados da cabeça aos pés a transportarem a panela da qual se bebia á concha. Percebemos que toda a aldeia estava a par do acontecimento e que acima de tudo preparados com mangueiras nas janelas de suas casas e piscinas insufláveis nos terraços para molhar toda a gente na rua, que por esta altura já se encontrava muito alcoolizada. O percurso foi feito com muita calma e com um crescente numero de participantes. A certa altura reparámos que um senhor na casa dos oitenta anos se encontrava completamente nu nas ruas da sua aldeia, mas toda a gente se encontrava calma e levaram o assunto com naturalidade.
Chegámos por fim ao "recinto de festas", o posto de comando da festa e onde actuam as bandas de baile, que tocam músicas de artistas de renome internacional como Quim Barreiros, Emanuel, Romana e muitos outros.
Para terminar em beleza demos um grandioso concerto com participação especial de alguns senhores da aldeia com o tema Samaritana. Lindíssimo.
Bem vinda multidão interessada no meu blog!
Pois bem, cá estou eu a dar inicio ao grandioso blog "A vida de um gaiteiro".
Para quem está a pensar que o dia de um gaiteiro não tem nada de interessante posso desde já adiantar que esta redondamente enganado. Eu sou gaiteiro desde os doze anos e tenho agora vinte e cinco, o que dá um grande historial de gaitadas, e posso garantir que se passam dias hilariantes. O meu objectivo com este blog é partilhar com quem estiver interessado algumas dessas histórias.
Bom proveito.
Para quem está a pensar que o dia de um gaiteiro não tem nada de interessante posso desde já adiantar que esta redondamente enganado. Eu sou gaiteiro desde os doze anos e tenho agora vinte e cinco, o que dá um grande historial de gaitadas, e posso garantir que se passam dias hilariantes. O meu objectivo com este blog é partilhar com quem estiver interessado algumas dessas histórias.
Bom proveito.
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